A cinderela desastrada
A história bem que poderia ser um conto de
fadas daqueles que conhecemos com princesas fabulosas e príncipes que surgem em
alazão branco ou numa BMW, modelo esportivo, para salvar a mocinha dos apuros.
Mas, tratando-se deste meu estilo desastroso de ser, o texto ganha alguns
momentos cômicos, e, claro, com relato de um deslumbrante par de sapatos.
Tudo começou com a escolha do sapato do dia e
foi exatamente neste instante que a cinderela desta história nasce. Não era um
sapatinho de cristal, mas tão belo como se fosse. O calçado eleito para ser
usado foi um lindo scarpin alto, preto, de camurça e com detalhes dourados na
parte de traz. Uma peça sofisticada da Claudina, vendida na loja Belle Scarp,
local onde estão expostos calçados de bom gosto e puro luxo. Porém, o grande
escolhido era um pouco alto de mais para um simples dia de batalha
profissional. Cinderela definiu o look e seguiu para o trabalho, caminhando em passos
firmes, calçando aquele sapato altíssimo.
Após horas de intenso serviço mental, presa
há muito tempo na torre da sala administrativa, a jovem senhora resolveu fugir
do prédio para almoçar num castelo comercial, localizado na padaria da rua ao
lado.
Após saciar sua fome com algumas guloseimas,
observou que o tempo estava se esgotando e teria que retornar ao trabalho
escravo antes que alguém notasse sua ausência. Caminhando pela rua esburacada,
num momento de feitiço, desequilibrou-se e caiu.
Não foi uma queda comum, foi simplesmente cinematográfica.
Cada par de sapatos voou para um lado, o celular se despedaçou e a cinderela se
esborrachou no chão. O cenário do acidente foi uma parada de ônibus lotada. Homens,
mulheres, idosos, crianças, comerciantes e estudantes aglomerados, disputando
um espaço à sombra daquela ordinária cobertura de espera do transporte público
manauara.
Vou tentar reconstruir a cena. Vamos lá:
imaginem aquele horário do término do primeiro expediente, do almoço, da saída
da escola, quando o ponto de ônibus está pra lá de cheio. Imaginaram? Pois é, era
assim que estava o local do acidente. Não poderia ser mais humilhante e nem mais
constrangedor do que cair em frente de tantas pessoas.
Aquela multidão toda viu a cinderela caindo
em câmera lenta e sem dublê. Pernas para um lado, braços para outro, parecia
mais acrobacia de ginasta. Pena que era uma jovem senhora sedentária, caindo
do segundo andar de seu salto 15.
No chão, a cinderela, quase uma gata
borralheira, não podia nem chorar, então resolveu rir de si mesma. Alguns
cavalheiros a ajudaram a se recompor e a resgatar o telefone móvel que parecia
mais uma sucata, vendo-o naquela situação, todo desmontado.
Pensativa, acanhada e extremamente encabulada
com o ocorrido, a cinderela não conseguia nem levantar a cabeça de tanta
vergonha. Foi então que surgiu o Príncipe do Ônibus, personagem que observou a
cena desastrosa do alto. Ele caridosamente pegou um dos sapatos, se ajoelhou e o
colocou nos pés empoeirados da moça. Foi um gentleman
em meio as risadagens. Depois disso, a cinderela saiu mais confiante, dando os
próximos passos até a torre.
Quem diria que aquele dito sapatinho lindo,
porém ordinário, objeto de desejo desgraçado de qualquer mulher, poderia causar
toda essa situação.
No final de tudo, a mocinha da história
chegou no trabalho com as pernas arranhadas e hematomas pelo corpo, porém com
uma versão diferente da moderna cinderela.

Adoooro esta história! O sapato é digno de uma cinderela moderna...belíssimo!
ResponderExcluirConheço várias cinderelas que passaram por essa situação....
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